Dra. Ana Azevedo, Cirurgiã Plástica, alerta sobre os altos índices de acidentes com queimaduras na Festa Junina e pede mais atenção ao CTQ do Walfredo Gurgel

Em conversa com Rômulo Galvão no BluePro Podcast, a cirurgiã plástica Dra. Ana Azevedo fala sobre queimaduras, prevenção, primeiros socorros, Centro de Queimados e o preço humano de tratar fogo como brincadeira.


“Queimadura é um processo longo. É uma verdadeira batalha: física e psicológica.”


NESTA ENTREVISTA

  • Por que queimaduras ainda são tão frequentes em acidentes domésticos e festas juninas.
  • O que fazer nos primeiros minutos: água corrente, nada de receitas caseiras e atendimento médico quando houver bolhas.
  • Por que fábricas clandestinas de fogos podem gerar os casos mais graves.
  • Como funciona o encaminhamento para o Centro de Queimados do Hospital Walfredo Gurgel.O apelo por estrutura digna para pacientes e profissionais.

Abertura: quando a tradição encontra o risco

RÔMULO GALVÃO — Você sabia que o número de acidentes com queimaduras aumenta entre 30% e 40% nas festas juninas, e que esse número pode chegar a 25% somente no Nordeste? A gente fala de acidentes com fogos de artifício, fogueiras, álcool, líquidos quentes e também daquelas fábricas de fundo de quintal, clandestinas, que costumam estar por trás dos acidentes mais graves. Quem vem conversar sobre prevenção, tratamento e a dor que uma queimadura pode causar na vida de uma pessoa é a Dra. Ana Azevedo. Seja bem-vinda, doutora.

DRA. ANA AZEVEDO — Obrigada, Rômulo. Obrigada pela oportunidade. Esse é um assunto que precisa ser falado. Quanto mais a gente falar sobre queimaduras, melhor. Nunca é demais. Às vezes a gente pensa que é fácil evitar ou que é fácil manusear, mas não é.

DRA. ANA AZEVEDO — Embora muitas queimaduras sejam evitáveis, elas ainda são muito prevalentes na rotina, tanto nos acidentes domésticos quanto nas festividades. Uma coisa pequena, como uma panela esquecida com o cabo para fora, ou um fogo de artifício que parece só um momento de diversão, pode resultar em uma queimadura. E essa queimadura pode ser grave, causar risco à vida e, mesmo quando o paciente se recupera, deixar sequelas. Por isso, a gente precisa ir à raiz do problema e evitar esses acidentes o quanto antes.

RÔMULO GALVÃO — Para quem chegou agora: a Dra. Ana Azevedo, conhecida carinhosamente como Leninha, é cirurgiã plástica, atua com cirurgias estéticas e reparadoras, contorno corporal e mama, e já esteve conosco em uma campanha muito bonita sobre reconstrução mamária pós-mastectomia. Hoje ela volta para falar sobre prevenção de queimaduras. E eu percebi que você está mais magra, mais malhada, mais fitness. Cada vez que vem aqui, está mais forte.

DRA. ANA AZEVEDO — A gente tenta, né? A gente também ama atividade física e bem-estar. Tudo está relacionado com esse ambiente em que a gente trabalha pela saúde do corpo, que pode ser alcançada de diversas formas: não só com cirurgias, mas também com hábitos de vida. A gente tenta estimular isso em nós mesmos e nos pacientes.

RÔMULO GALVÃO — A promessa aqui é entregar uma mensagem útil. A gente vai falar sobre o Hospital Walfredo Gurgel, deixar uma bronca, trazer conteúdo para quem a gente não quer que vire vítima e, no final, deixar também um recado para os médicos que estão na linha de frente, na UPA e na UBS, sobre como conduzir e encaminhar melhor o caso do queimado. Vamos começar.

O encontro com os queimados

RÔMULO GALVÃO — Você atua principalmente com contorno corporal e mama, mas também tem muito contato com pacientes queimados e com o Centro de Queimados. Como começou esse contato?

DRA. ANA AZEVEDO — Quando eu cheguei em Natal, além da parte de consultório e cirurgias particulares, comecei a dar plantões. Eu sempre tive interesse em manter contato com urgência e emergência. Aqui, encontrei esse plantão no Walfredo Gurgel. A equipe da cirurgia plástica fica tanto na porta, atendendo os pacientes que chegam de imediato, quanto na retaguarda, no Centro de Queimados.

DRA. ANA AZEVEDO — Foi um plantão com o qual eu me identifiquei bastante. Desde a residência, ainda na cirurgia geral, eu já achava muito interessante acompanhar como o paciente vai de um estado grave até uma recuperação. Talvez não 100%, mas uma recuperação extrema. A gente vê o antes e o depois do paciente. É impressionante o quanto aquele setor influencia e ajuda na recuperação de casos que, no primeiro atendimento, parecem impossíveis. Depois de alguns meses, porque a internação pode ser extensa, a gente vê aquele paciente que passou até um tempo sem andar sair andando pela porta do CTQ. Então é um setor pelo qual eu tenho afeto e gosto de fazer parte.


“A gente vê o paciente sair de um estado grave para uma recuperação extrema.”


RÔMULO GALVÃO — São dois extremos: o quanto o ser humano é capaz de se regenerar e o quanto a ciência e a medicina conseguem ajudar nesse processo.

DRA. ANA AZEVEDO — Exato. E são curativos e tratamentos que nem sempre são muito avançados tecnologicamente. Existem, no mundo, vários recursos superavançados, cheios de tecnologia, mas eles nem sempre estão na nossa realidade. Ainda assim, com o simples, com o básico bem feito, mesmo que o tratamento seja mais arrastado, a gente consegue recuperar muito bem esse paciente.

RÔMULO GALVÃO — Daria para dizer que, no tratamento de queimaduras, o básico bem feito e a paciência fazem parte do tratamento?

DRA. ANA AZEVEDO — Sim. Eu já ouvi profissionais do Centro de Queimados dizerem ao paciente que queimadura é um processo longo. É também um processo de sofrimento. Apesar de a equipe fazer de tudo para dar o máximo conforto, são lesões que doem. É como uma verdadeira batalha, uma missão. Não é só uma dor física, é uma dor psicológica também, com a qual o paciente precisa conviver por um período, geralmente longo, dependendo do grau da queimadura.

Os acidentes mais comuns

RÔMULO GALVÃO — Na sua experiência, quais são os acidentes com queimaduras mais comuns no dia a dia?

DRA. ANA AZEVEDO — Em crianças, a gente vê muito caso de escaldadura, que é queimadura com água quente. Pode acontecer quando a água está fervendo no fogão e a criança bate no cabo da panela. Pode ser uma xícara com café ou água quente em cima da mesa e a criança derruba nela mesma. Pode ser a mãe que aquece água para o banho e a criança coloca a mão antes da hora, antes de aquela água esfriar.

DRA. ANA AZEVEDO — Em adultos, geralmente vemos queimaduras por óleo quente, chama direta ou álcool. Pode acontecer cozinhando, fazendo churrasco ou tentando acender fogo. Esses são os tipos mais comuns que a gente encontra.

RÔMULO GALVÃO — Qual é o alerta para os pais quando o assunto é escaldadura em crianças?

DRA. ANA AZEVEDO — O primeiro ponto é evitar. Eu sei que é difícil. Muitas mães ficam sozinhas com filhos pequenos, às vezes mais de um, e não conseguem dar conta de tudo ao mesmo tempo. Mas a orientação é colocar os cabos das panelas para dentro, tentar cozinhar nas bocas do fogão mais distantes da borda, de forma que a criança não alcance.

DRA. ANA AZEVEDO — Também é importante não deixar água quente acessível em balde, banheira ou qualquer recipiente antes de a temperatura estar adequada. Café deve ficar em garrafas térmicas e fora do alcance. Quanto mais difícil e quanto mais obstáculos houver para que a criança entre em contato com líquido quente, melhor.

PREVENÇÃO DOMÉSTICA BÁSICA
Cabos das panelas sempre virados para dentro.
Usar as bocas de trás do fogão quando possível.
Não deixar xícaras, panelas, baldes ou banheiras com água quente ao alcance da criança.
Guardar café e outros líquidos quentes em garrafas térmicas fora do acesso infantil.
Aumentar os obstáculos entre a criança e qualquer fonte de calor.

São João: fogos, fogueiras e fábricas clandestinas

RÔMULO GALVÃO — E no período de festa junina, especialmente aqui no Nordeste, quais são os acidentes mais comuns?

DRA. ANA AZEVEDO — A gente recebe muitos casos relacionados aos locais onde ocorre a produção de fogos de artifício. Ainda existe muita produção artesanal. Às vezes as pessoas manipulam material explosivo em lugares pequenos e fechados. Um acidente não atinge só quem está manuseando, mas também outras pessoas ao redor. Muitas vezes esses lugares de produção ficam no fundo de casa, em um quarto pequeno, o famoso fundo de quintal.

DRA. ANA AZEVEDO — Quando esse acidente acontece, geralmente há múltiplas vítimas. Todo mundo que foi atingido acaba sendo direcionado ao mesmo hospital. Aqui no Rio Grande do Norte, o Hospital Walfredo Gurgel é o único hospital do estado com Centro de Queimados e referência para esse tipo de acidente. Em menor quantidade, também há acidentes com pequenos fogos manuseados por crianças durante as festas de São João.

RÔMULO GALVÃO — Eu pensava que a maioria dos casos era de criança brincando, mas você está dizendo que os casos mais graves vêm dessas fábricas de fundo de quintal.

DRA. ANA AZEVEDO — Isso. Talvez os acidentes com crianças até sejam mais frequentes, mas temos a sorte de muitos serem menores, com queimaduras menos graves e mais fáceis de tratar. As queimaduras que acabam internadas por mais tempo e que são mais graves são, muitas vezes, as da produção artesanal de fogos.

DRA. ANA AZEVEDO — No ano passado, por exemplo, houve casos com três a cinco trabalhadores que precisaram de internação. O tempo de internação variou de acordo com a gravidade. Quem estava manipulando o material e foi mais atingido pelas chamas precisou de atendimento mais voltado à terapia intensiva, na UTI. Já os que estavam mais distantes foram menos atingidos, ficaram no CTQ, que também funciona como setor de enfermaria para pacientes menos graves, e conseguiram se reabilitar e receber alta.

RÔMULO GALVÃO — Existe também o caso da Paloma, que sofreu um acidente em posto de gasolina e ficou internada por um ano. Queimaduras podem chegar a esse nível?

DRA. ANA AZEVEDO — Podem. Infelizmente, dependendo do grau, da porcentagem de superfície corporal atingida e da profundidade, há casos incompatíveis com a vida. Já tivemos queimaduras de mais de 90% do corpo, queimaduras profundas. Para avaliar gravidade, a gente observa quanto foi queimado e qual foi a profundidade da queimadura.

DRA. ANA AZEVEDO — Em explosões em ambiente fechado, o fogo tende a se propagar mais. O paciente também pode aspirar partículas e sofrer intoxicação por gases. Não é apenas o fogo ou a chama em si que influencia a gravidade. Pacientes grandes queimados, com mais de 70% da superfície corporal atingida, por exemplo, têm quadro praticamente incompatível com a vida. Há poucos casos que conseguimos reabilitar. Em um caso que acompanhei, o paciente tinha em torno de 90% da superfície corporal queimada e evoluiu a óbito, apesar de todos os cuidados ao nosso alcance.

DRA. ANA AZEVEDO — No caso da Paloma, foi uma explosão grande, mas em ambiente aberto. Eu não acompanhei o caso, porque ainda não estava na cidade, mas é uma história muito citada no setor. Foi um caso grave, que impactou todo mundo, mas com uma superfície corporal menor, e por isso foi possível reabilitá-la, mesmo que tenha levado muito tempo. Quando falo que o tratamento pode levar meses ou até um ano, é isso: tempo até a paciente sair do ambiente hospitalar em condições, às vezes ainda precisando de reintegração ou de mais tratamento.


“Existem queimaduras tão extensas e profundas que são incompatíveis com a vida.”


RÔMULO GALVÃO — Sem romantizar a história, porque houve superação, mas houve muita dor. E nem sempre o desfecho é esse. Muitos pacientes chegam a morrer mesmo. Mas a orientação é sempre levar ao hospital.

DRA. ANA AZEVEDO — Sim. Sempre procurar atendimento.

RÔMULO GALVÃO — No São João, a criança é mais vulnerável do que o adulto?

DRA. ANA AZEVEDO — Depende. Os fogos de artifício mais fortes, aqueles maiores, normalmente não são tão manipulados por crianças. A criança costuma ter acesso aos fogos menores: pisca-pisca, chumbinho, coisas menores. Mas uma criança muito pequena pode sofrer grande dano mesmo com uma chama ou explosão pequena, porque tem superfície corporal menor.

DRA. ANA AZEVEDO — Hoje, pelo menos no São João, eu acho que muitos pais já estão mais esclarecidos e evitam que crianças tenham contato com esses explosivos. O foco acaba indo um pouco mais para os adultos que manipulam os fogos. Mas os pais que ainda não têm essa consciência precisam entender: criança não deve manipular fogo nem explosivo. A gente sabe que é uma época de comemoração, que criança se atrai por aquilo brilhante, mas é preciso evitar. Criança não é para ter contato com fogo.

RÔMULO GALVÃO — E no interior ainda existe muita fogueira na rua.

DRA. ANA AZEVEDO — Sim. Não são só os explosivos. Há também a chama direta. O cuidado é o óbvio: manter as crianças o mais longe possível das fogueiras. Parece absurdo ter que dizer a um pai ou a uma mãe para não levar uma criança para perto de uma fogueira, porque parece que eles já deveriam saber disso. Mas ainda há muita tradição envolvendo fogo.

DRA. ANA AZEVEDO — Eu lembro de casos em que as pessoas usam fogo até fora de datas comemorativas: “o mato no quintal cresceu, vou colocar fogo para limpar”. Em vez de capinar, colocam fogo. A população, de forma geral, ainda não entendeu totalmente que fogo é perigoso e pode causar danos graves, até óbito.

RÔMULO GALVÃO — Como médica, que conselho você daria aos pais antes de levar uma criança para uma festa junina?

DRA. ANA AZEVEDO — Primeiro: evitem o contato. Não dá para dizer “fiquem perto enquanto a criança manuseia”. Criança não deve manusear nenhum tipo de explosivo ou fogo. Segundo: além de manter distância, continuem observando a criança. A gente sabe que criança, se você ficar um minuto sem olhar, provavelmente vai aprontar. Não porque tenha consciência de que está fazendo algo errado, mas porque ela vai fazer.

DRA. ANA AZEVEDO — Se houver fogueira na festa, impeça que a criança chegue perto. A maior prevenção é evitar o contato. A gente talvez nunca consiga proibir completamente as tradições, mas a responsabilidade dos pais é manter a criança longe.

RÔMULO GALVÃO — Qual é a sua opinião sobre fogueira no meio da rua em festa junina?

DRA. ANA AZEVEDO — Apesar da tradição, principalmente no Nordeste, eu acredito que a gente consegue comemorar e ter uma festa bonita sem necessariamente ter uma fogueira. Porém, se houver fogueira, que seja em espaço mais isolado e manipulada somente por pessoas com experiência e competência para lidar com fogo. Idealmente, com roupa apropriada e conhecimento sobre o que fazer em caso de acidente.

DRA. ANA AZEVEDO — Em eventos grandes, seria importante ter Corpo de Bombeiros ou uma equipe responsável para evitar danos. Em locais como Campina Grande, por exemplo, é possível isolar uma área maior, aberta, com estrutura. Em capital, acho mais complicado. Em uma fazenda, no interior, também é uma situação diferente, mas tudo precisa ser muito controlado. O problema é justamente quando foge do controle.

Erros que pioram a queimadura

RÔMULO GALVÃO — Quais são os principais erros que as pessoas cometem ao se expor ao fogo ou quando acontece uma queimadura?

DRA. ANA AZEVEDO — Quem manipula fogos ou fogueira deveria ter vestimenta apropriada, com material ideal para esse tipo de atividade. Mas sei que isso é muito difícil na população geral. Em caso de queimadura, o mais importante é que os primeiros cuidados sejam adequados.

DRA. ANA AZEVEDO — Ainda existe muita tradição, especialmente no interior, de colocar produtos na queimadura achando que aquilo vai melhorar ou cicatrizar mais rápido. A gente vê pasta de dente, borra de café, ervas e várias outras coisas. Esses produtos provavelmente vão irritar uma pele que já está machucada, podem aprofundar a lesão e ainda criar foco de infecção.

DRA. ANA AZEVEDO — A orientação é: aconteceu o acidente, teve queimadura, lave com água corrente e procure auxílio médico. Não aplique nenhuma substância. Mesmo se for uma pomada, se você não sabe exatamente qual é, não aplique. Só lave com água em temperatura ambiente e procure orientação médica.

RÔMULO GALVÃO — Vamos derrubar alguns mitos. Primeiro: água muito gelada, gelo ou clara de ovo. Pode?

DRA. ANA AZEVEDO — Não. Água gelada com gelo não é indicada. A pele não queima só com fogo, ela também pode queimar com gelo. Aqui a gente vê menos esse tipo de queimadura porque vive em um país tropical, mas acontece.

DRA. ANA AZEVEDO — Lembro de um paciente recente, um senhor idoso e diabético, que machucou o antebraço. Ele pensou em fazer uma compressa para aliviar a dor, o que não estava errado em princípio. Mas fez uma compressa de gelo muito gelada, em contato direto com a pele, sem proteção, sem uma toalha. Como era diabético, já tinha sensibilidade reduzida e acabou adormecendo com a compressa. Ela ficou ali até o gelo derreter, e ele fez uma queimadura de terceiro grau por gelo.

DRA. ANA AZEVEDO — Quando demorou alguns dias para procurar atendimento e foi transferido para o CTQ, a lesão já tinha uma capa preta, necrótica. Quando fomos retirar para ver por baixo, a lesão era profunda, chegava à musculatura. Precisou de tratamento prolongado, muitos curativos, antibióticos, porque já estava infectada, e cirurgias para restabelecer a pele. Então até uma compressa inocente de gelo, dependendo do paciente e do tempo de exposição, pode causar lesão grave.

DRA. ANA AZEVEDO — Sobre clara de ovo: também não. O ovo não é estéril. Pode ter bactérias e substâncias que a gente não quer em uma ferida. Repito: não colocar nada na ferida além de água corrente. No hospital, aí sim, existem curativos adequados, pomadas e placas que ajudam a cicatrização em vez de atrapalhar.

RÔMULO GALVÃO — E pasta d’água? Pasta de dente?

DRA. ANA AZEVEDO — Também não. Para queimadura, é água corrente. Água em temperatura ambiente para lavar, limpar e depois procurar atendimento. Pasta d’água e hidratantes podem ser usados em situações muito superficiais, como uma queimadura solar em que a pele ficou só vermelha e dolorida, sem bolha e sem lesão aberta.

DRA. ANA AZEVEDO — Quando há bolha, e especialmente se a bolha estourou, a pele já não está íntegra. A epiderme, que é a camada mais superficial e seca, já não está protegendo. A superfície vermelha e úmida que aparece é a derme. Nessa situação, hidratante de supermercado, pasta d’água e produtos tópicos comuns não ajudam. São necessários outros cuidados, outras pomadas e curativos adequados. E a bolha não deve ser estourada fora do ambiente hospitalar.

O QUE NÃO PASSAR EM QUEIMADURA
Pasta de dente.
Pasta d’água em ferida aberta ou com bolha.
Clara de ovo.
Borra de café.
Ervas ou receitas caseiras.
Gelo direto na pele.
Pomadas sem orientação médica.

RÔMULO GALVÃO — E para dor? A pessoa lavou com água, não colocou pasta, clara nem gelo. O que fazer?

DRA. ANA AZEVEDO — Para dor, a gente usa analgésicos, não produtos tópicos. Tudo que é passado no local pode prejudicar. Talvez alivie momentaneamente, mas pode atrapalhar o tratamento depois. Então o ideal é lavar com água corrente, proteger a área de forma adequada e procurar atendimento.

DRA. ANA AZEVEDO — Em uma UBS ou UPA, os profissionais podem fazer um curativo, colocar a pomada adequada e cobrir com gaze ou compressa para transportar ao Centro de Queimados, caso seja necessário. Em casa, não é o ideal cobrir com pano diretamente, porque pode grudar e, na remoção, lesionar ainda mais. Mas a gente ainda prefere que a ferida venha protegida do que totalmente aberta, exposta à sujeira ou a traumas acidentais.

DRA. ANA AZEVEDO — Se for necessário cobrir antes de chegar ao serviço de saúde, use algo limpo e leve, como um tecido limpo, para proteger. Lave bastante com água corrente, cubra de forma limpa e procure o serviço. A dor deve ser aliviada principalmente com medicamento.

Como entender a gravidade

RÔMULO GALVÃO — Para quem é leigo: como diferenciar o nível de gravidade de uma queimadura em casa?

DRA. ANA AZEVEDO — Para o leigo, o grau exato não muda muito a conduta. Quem precisa diagnosticar a profundidade somos nós, porque o tratamento muda conforme o grau da queimadura. O que a pessoa precisa saber é quando procurar ajuda.

DRA. ANA AZEVEDO — As queimaduras de primeiro grau são superficiais: a pele fica vermelha, sem bolha e sem ferida aberta. Essas tendem a sarar sem problema, sem curativos especiais. Nesses casos, geralmente uma queimadura solar, pode haver hidratação tópica.

DRA. ANA AZEVEDO — Mas se formar bolha, provavelmente já é uma queimadura mais profunda. A orientação é procurar atendimento médico, seja em um posto de saúde, seja em uma UPA, para receber as orientações corretas. É sempre melhor que o médico veja e examine do que a pessoa tentar reconhecer e tratar sozinha em casa.

RÔMULO GALVÃO — Resumindo: não tem bolha, pode ser cuidado em casa com hidratação. A partir de uma bolha, deve procurar um médico.

DRA. ANA AZEVEDO — Mais ou menos isso. Se levantou uma bolha, o ideal é procurar um médico. E não estourar a bolha fora do ambiente hospitalar. A bolha tem um líquido que, a princípio, é estéril. Quando ela é estourada, a pele sem epiderme fica suscetível à infecção. Uma ferida pequena, se infecta e não for bem conduzida, pode evoluir para algo mais grave ou cicatrizar de forma inestética, deixando uma cicatriz feia. A gente quer a melhor recuperação possível. Em caso de dúvida, procure o médico.

RÔMULO GALVÃO — Quais regiões do corpo exigem mais cuidado quando queimam?

DRA. ANA AZEVEDO — A gente fala das áreas nobres: rosto, mãos, região do períneo, que é a região genital, e regiões de grandes articulações, como a parte de dentro do cotovelo. São áreas funcionais. Se uma cicatrização ali gera limitação de movimento, por exemplo, isso prejudica o paciente no trabalho e nas atividades diárias.

RÔMULO GALVÃO — Pode existir queimadura de segundo grau causada pelo sol?

DRA. ANA AZEVEDO — É mais difícil, mas pode acontecer em alguns pontos. Muitas vezes, depois de uma insolação, a maior parte do corpo fica vermelha, como primeiro grau, e uma região ou outra forma pequenas bolhas. Se forem bolhas mínimas, milimétricas, provavelmente cicatrizam sem dano. Mas bolhas maiores, que precisam de curativos e cuidados maiores, são indicação de procurar especialista.

DRA. ANA AZEVEDO — Também é importante dizer que o mesmo paciente pode ter vários graus de queimadura em regiões diferentes. Em uma queimadura por chama, a área que teve contato mais direto com o fogo tende a ser mais profunda. Uma área mais distante pode ter sido atingida pelo calor, ficar vermelha e dolorida, mas sem dano maior à pele.

DRA. ANA AZEVEDO — Na medicina, falamos das zonas de Jackson. A zona central é a de coagulação. A mais periférica é a de hiperemia. No meio, existe a zona de estase, que pode evoluir para pior ou para melhor dependendo do tratamento e do tempo até iniciar o cuidado. Por isso, após o acidente, é importante procurar socorro médico imediato, para recuperar a lesão da melhor forma possível.


“A partir de uma bolha, o ideal é procurar atendimento médico.”


Para onde ir: UBS, UPA, dermatologista ou cirurgião plástico?

RÔMULO GALVÃO — Qual é o melhor profissional para procurar em caso de queimadura?

DRA. ANA AZEVEDO — A maioria dos médicos clínicos que estão em unidade básica ou unidade de pronto atendimento estudou isso durante a faculdade e tem capacidade para diferenciar os tipos de lesão. A partir dessa diferenciação, ele vai direcionar os casos que precisam de cuidado especializado para o Centro de Queimados. Aqui no estado, esse centro fica no Hospital Walfredo Gurgel.

DRA. ANA AZEVEDO — Lá, há cirurgião plástico de plantão 24 horas. Ele examina o paciente e, se entender que precisa de cuidados especiais, faz a internação e direciona para o Centro de Queimados para dar continuidade ao tratamento.

RÔMULO GALVÃO — E onde entra o dermatologista, por exemplo, nas queimaduras solares?

DRA. ANA AZEVEDO — A queimadura solar geralmente é menos procurada, especialmente em uma cidade de sol como Natal, porque as pessoas estão acostumadas. A dermatologia entra muito na prevenção: roupa com proteção UV, protetor solar, reaplicação depois de entrar no mar, orientação de exposição solar.

DRA. ANA AZEVEDO — Quando a pessoa não segue essas recomendações e tem uma queimadura de primeiro grau pelo sol, o dermatologista é muito capacitado para orientar os cuidados locais de hidratação, porque entende profundamente de pele. Se você já tem um dermatologista, ele saberá orientar também.

DRA. ANA AZEVEDO — Mas, de forma geral, se ocorreu queimadura, procure auxílio médico. Tanto o dermatologista quanto o médico da UPA podem avaliar. Alguns casos se resolvem com curativo e orientação. Outros precisam ser avaliados pelo cirurgião plástico, não necessariamente porque vão precisar de cirurgia imediata, mas porque talvez não evoluam bem e, após a fase aguda, precisem de desbridamento, enxerto ou retalho para restaurar a pele danificada.

Quando encaminhar ao Centro de Queimados

RÔMULO GALVÃO — Você comentou que, no São João, talvez existam muitos casos pequenos, mas os que internam costumam ser mais graves. Como isso aparece no serviço?

DRA. ANA AZEVEDO — No ano passado, perto de junho, o CTQ já estava quase cheio. O setor não tem muitos leitos. Acredito que comporte em torno de 15 pacientes no máximo, divididos entre enfermaria masculina, feminina e infantil. Eu pensei: “vem São João, vai ficar caótico”. Os profissionais comentaram que às vezes enche mais no final do ano, por causa dos fogos de artifício e também de tentativas de autoextermínio. Mas naquele período houve mais de uma explosão em produção de fundo de quintal e o setor ficou bem cheio.

DRA. ANA AZEVEDO — A minha teoria é que, no São João, há muitos casos menos graves que talvez nem cheguem ao CTQ ou chegam, são atendidos e acompanhados ambulatorialmente. Como lá priorizamos a internação dos mais graves, alguns pacientes são manejados em ambulatório. Quando moram em Natal ou na Grande Natal, conseguem ir para casa e retornar ao ambulatório duas vezes por semana, por exemplo. Fazem curativo na segunda e voltam na sexta para avaliação. Se precisar de cirurgia, agenda.

DRA. ANA AZEVEDO — Quando o paciente vem de um interior distante, sem transporte da prefeitura, ou tem condição social vulnerável, ou é idoso e mora sozinho, a gente tende a internar para garantir que ele esteja por perto e que a ferida não evolua mal.

RÔMULO GALVÃO — Qual é o recado para o médico que está na linha de frente e tem dúvida se deve encaminhar?

DRA. ANA AZEVEDO — Existem indicações específicas de internação e encaminhamento para Centro de Queimados. Isso é mais voltado ao médico. Mas a orientação geral é: na dúvida, encaminhe para o CTQ. Às vezes, uma dúvida que parece simples não é tão simples. Às vezes a ferida realmente precisava de um cuidado específico.

DRA. ANA AZEVEDO — Em criança, idoso e pessoas socialmente vulneráveis, que não têm condição adequada de cuidado em casa, também é importante direcionar para o setor, para que a equipe avalie em conjunto, inclusive com assistente social, qual é a melhor forma de conduzir aquele paciente.

RÔMULO GALVÃO — Como professora, o que você tenta ensinar aos alunos sobre queimaduras?

DRA. ANA AZEVEDO — Nas oportunidades em que tenho contato com os alunos, tento ensinar o básico que eles precisam para a prática. Eles precisam saber diferenciar lesões, fazer o curativo básico e saber quando encaminhar para o especialista. Ninguém domina tudo da medicina, mas, sabendo o básico, é possível direcionar o paciente corretamente.

DRA. ANA AZEVEDO — Encaminhar também é conduta. Quando a gente está recém-formado, é normal ter inseguranças. Acho prudente que o médico recém-formado tenha humildade para consultar professores e colegas mais experientes. Muitos professores se mostram dispostos a ajudar, independentemente da especialidade. Se você está no plantão e surge uma dúvida, mande mensagem para alguém com mais experiência ou encaminhe para um serviço terciário, um hospital maior.

DRA. ANA AZEVEDO — Ninguém vai tirar seu mérito por isso. Ao contrário, você pode estar salvando uma vida. Não é porque você se formou e tem CRM que está sozinho. A gente está aqui para se ajudar. É melhor esclarecer a dúvida e fazer o melhor tratamento do que confiar demais em si mesmo ou tomar uma conduta insegura e depois ficar se perguntando se fez certo.


“Na dúvida, encaminhar também é uma conduta. Ninguém vai tirar seu mérito por isso.”


O estado do Centro de Queimados

RÔMULO GALVÃO — Como está hoje o Centro de Queimados do Walfredo Gurgel? Eu visitei algumas vezes e vi uma reforma que parece eterna, com tijolo exposto, coisas mal acabadas. Qual é a situação?

DRA. ANA AZEVEDO — Para falar do CTQ, preciso dividir em dois aspectos: os profissionais que estão lá e a estrutura disponibilizada para esses profissionais. Quando falamos de queimadura, como cirurgiã plástica, falamos muito dos cirurgiões. Mas o cirurgião plástico é só uma parte muito pequena do setor.

DRA. ANA AZEVEDO — Lá dentro, precisamos de várias especialidades: cirurgião plástico, clínico, anestesista, porque a queimadura dói muito e às vezes a troca de curativos exige anestesia; psiquiatra; ortopedista quando há trauma associado; pediatra para queimadura infantil. E há muitos outros profissionais essenciais: técnicos de enfermagem, enfermeiros especializados em curativos de queimados, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, assistente social, nutricionista, psicólogos. Os pacientes precisam ser bem alimentados para que as feridas cicatrizem.

DRA. ANA AZEVEDO — O Walfredo tem uma equipe humana excelente, muito especializada em trabalhar com queimados. Mas o setor está muito prejudicado na parte estrutural. Não adianta ter uma equipe preparada se ela não tem condições de trabalho para prestar a melhor assistência. E não estou falando apenas da falta de materiais, que também existe. Às vezes falta o básico dos curativos. Hoje o principal problema é estrutural.

RÔMULO GALVÃO — O que aconteceu com a reforma?

DRA. ANA AZEVEDO — O CTQ foi fundado, se não me engano, no início dos anos 2000. Depois de cerca de 20 anos, precisou começar uma reforma para dar suporte maior aos pacientes. A reforma foi iniciada há alguns anos e depois foi interrompida. No ano passado, completou um ano desde que a reforma começou e parou. Depois de muita pressão dos profissionais e de quem está à frente do serviço, ela foi retomada no final do ano passado.

DRA. ANA AZEVEDO — Mas, embora tenha sido retomada, ela está caminhando muito lentamente. Passa períodos parada. Não está tão estagnada quanto antes, mas já estamos praticamente no meio do ano, falando de festa junina, e a reforma, do começo do ano para cá, acabou desestruturando ainda mais o setor. Para reformar, às vezes é preciso quebrar parede, mexer em fiação, energia, encanamento. O problema é que parece que parou justamente na parte em que tudo fica pior.

DRA. ANA AZEVEDO — Temos tijolos à mostra, paredes quebradas, encanamento visível, e os pacientes continuam lá, porque o CTQ não pode parar. É o único local de atendimento desses pacientes no estado. Eles estão em um ambiente inóspito, que não é ideal. Em queimadura, lidamos muito com curativo e precisamos de um ambiente o mais limpo e estéril possível. É difícil equilibrar isso com obra acontecendo ou parada no meio. Além disso, há partes que nem chegaram a começar a reforma, como quartos com goteira. O paciente queimado já é extremamente sensível, já vive uma doença grave e de difícil manejo, e ainda precisa ficar internado em uma estrutura nada acolhedora.


“O CTQ não pode parar. É o único lugar de atendimento desses pacientes no estado.”


RÔMULO GALVÃO — Que mensagem você deixaria para gestores e governantes sobre o Centro de Queimados?

DRA. ANA AZEVEDO — A gente sabe que não só o CTQ, mas o Hospital Walfredo Gurgel como um todo, precisa melhorar muito a estrutura. Profissionais do CTQ e de outros setores sofrem com isso. Eu não gostaria de usar essa palavra, mas vou usar: é um descaso do Estado com um hospital que não é referência apenas para queimados, mas para pacientes traumatizados do estado inteiro.

DRA. ANA AZEVEDO — É um hospital com muitos profissionais capacitados, mas com uma estrutura de trabalho infelizmente muito deficiente. Que os responsáveis olhem para o hospital com vontade de mudar aquilo. Que forneçam um ambiente de trabalho digno para que os pacientes sejam tratados com dignidade e com o melhor que precisam para se recuperar.

DRA. ANA AZEVEDO — E, se possível, com atenção especial ao Centro de Queimados, porque é um setor diferente. Os pacientes ali estão entre os mais fragilizados e precisam de cuidado ainda mais especializado. Eles precisam de uma estrutura básica para serem bem atendidos. Espero que alguém responsável por essas obras, pela administração ou por decisões acima disso, se compadeça e tire essa reforma da inércia.

RÔMULO GALVÃO — Às vezes a gente acha que nunca vai precisar daquilo. Mas o CTQ é referência para o estado. Seja rico ou pobre, da capital ou do interior, em queimadura, o lugar em que a pessoa será melhor tratada é lá. Não é necessariamente o hospital particular que vai entregar aquele tipo de atendimento especializado.

DRA. ANA AZEVEDO — Exatamente. Qualquer pessoa, em qualquer momento, pode ser vítima de queimadura e precisar daquele setor. A gente quer dar para qualquer pessoa o melhor atendimento. Para isso, os profissionais precisam de estrutura mínima para trabalhar com dignidade.

Mensagem final: prevenção antes da dor

RÔMULO GALVÃO — Qual mensagem você deixa para pais, crianças e adultos sobre prevenção de queimaduras neste São João?

DRA. ANA AZEVEDO — Reforço o que falei durante toda a conversa: a principal prevenção é evitar o contato. Apesar de sabermos que o São João está enraizado na nossa cultura, precisamos colocar a mão na consciência e pensar: vale a pena comemorar uma festividade colocando nossa saúde em risco?

DRA. ANA AZEVEDO — A queimadura pode ser grave. Pode precisar de atendimento especializado. E o tratamento completo dessa doença pode demorar meses ou até anos. Será que por um momento único de diversão com fogo, chama, fogueira ou fogos de artifício vale a pena carregar uma sequela tão grande na vida?

DRA. ANA AZEVEDO — Além de um tratamento longo, que mexe com o psicológico do paciente, a queimadura pode deixar sequelas para a vida inteira, seja uma limitação física, seja um trauma. Então vamos colocar a mão na consciência e tentar evitar o contato para evitar danos futuros.

RÔMULO GALVÃO — E se a família disser: “não conseguimos evitar totalmente”?

DRA. ANA AZEVEDO — A orientação continua sendo não dar chance para nada acontecer. Evite o contato, monitore sempre e não entregue fogo ou explosivos para crianças.

RÔMULO GALVÃO — Pessoal, quem esteve com a gente hoje foi a Dra. Ana Azevedo. Já passou da hora de deixar o like, mas não só isso: compartilhe essa mensagem no grupo da família. Chega de compartilhar fake news. Vamos compartilhar informação boa, informação que salva vidas. Esse é o BluePro Podcast e a gente fica por aqui.

Posts recentes

Rômulo Galvão

Dr. Bruno Alexandre – Rinoplastia

No episódio 02 do BluePro Podcast, o Dr. Bruno Alexandre, referência em cirurgia plástica nasal, compartilhou suas experiências e reflexões sobre como a rinoplastia pode transformar vidas de forma equilibrada e consciente.

Read More »